Campeão brasileiro pelo Flamengo revela como é trabalhar com o treinador Jorge Jesus: ‘Quer gracinha? Vai para praia!’

Treinador Jorge Jesus durante uma partida do Flamengo (Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Comandante do Flamengo, líder do Campeonato Brasileiro e que está na semifinal da Libertadores, Jorge Jesus caiu nas graças de torcedores e jogadores rubro-negros. O “mister” fez uma longa carreira como no futebol português – em clubes como Benfica e Braga – antes de se aventurar pelo Brasil.

O ex-zagueiro Gélson Baresi, revelado pelo clube da Gávea e campeão brasileiro em 1992 conhece bem o treinador. Eles trabalharam juntos por uma temporada no Vitória de Setúbal (2000/2001) e ficaram na segunda posição da Segunda Liga de Portugal, conquistando o acesso para a elite.

O brasileiro contou em entrevista exclusiva à ESPN suas melhores passagens com o técnico português, que hoje comandará o time rubro negro contra o Atlético-MG.

Fama de durão

Jesus durante treinamento do Flamengo no Ninho do Urubu (Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Eu ainda não tinha informações sobre ele antes de trabalharmos juntos. Ele tinha uma fama de treinador durão, disciplinador e que trabalha forte. Os jogadores portugueses passavam isso para a gente. O Jesus chegou na sexta rodada do torneio e passamos a conhecê-lo no dia a dia.

Ele trabalhava o jogador no limite em todos os treinos, até mesmo na parte física e tática. Muitos jogadores não compreendiam isso, levando para o lado pessoal e se ofendendo.

O Jesus é um treinador que vive o futebol 24 horas por dia e transmite muita emoção. Tem horas que ele até extrapola. Mas quando você passa a conhecê-lo, entende que ele faz isso para melhorar a equipe. O jogador precisa entender a maneira dele lidar com o grupo.

Não era um cara de bajular. Os técnicos brasileiros têm um lado paternalista em função da carência dos jogadores. Treinador aqui precisa ser pai, terapeuta, administrador… Na Europa não tem isso. Lá, todos são profissionais, incluindo os jogadores. Depois que termina os treinos, cada um vai para a sua casa. É um lado mais frio mesmo.

Ele tinha 45 anos naquela época e corria com os jogadores. Claro, que era malandro, ia pela parte de dentro do campo para correr menos (risos). Ele incentivava os atletas correndo e gritando (risos).

‘Aqui não é praia’

O João Pedro era um atacante brasileiro muito técnico e habilidoso. Jogava pelas pontas como um extremo. Em um dos treinos ele passou pelo lateral-esquerdo e chegou até a linha de fundo. O Jesus queria que o jogador fosse objetivo e cruzasse a bola na área para os atacantes. Só que ele esperou o lateral se recompor e tentou dar um corte de letra. Naquele momento, o ‘mister’ parou e disse: ‘João Pedro, aqui não é beach soccer! Quer fazer gracinha? Vai para a praia!’ Naqueles tempos, a seleção brasileira de beach soccer fazia muitos lances de efeito em jogos de exibição.

Eu conversava bastante com o Jorge, que me falava: ‘Você é um zagueiro muito técnico e inteligente. Se fosse mais veloz poderia ser considerado um dos melhores’. Eu brincava: ”Mister’, se eu fosse rápido eu não seria zagueiro. Eu seria atacante porque os defensores recebem bem menos (risos)’.

Ele no campo se transformava. Depois dos treinos tinha um comportamento muito agradável, batia papo conosco.

Bafômetro de Jorge Jesus

Ele não deixava levar os telefones celulares para o refeitório. Você só levanta da mesa quando o último terminar a sua refeição. Ou seja, ninguém comia rápido para ir se trancar no quarto. Ele usava esse momento das refeições para conversar com os jogadores. Não sei se ele faz isso hoje em dia, ainda mais hoje com a tecnologia.

‘Jogador que sabe correr de costas é o diferencial’. O que é isso? É dar um ou dois passes para trás e dar opções de jogadas para os colegas de time. Os jogadores vão estar te vendo. Quando o atleta não sabia correr de costas, o Jesus mandava o cara dar uma volta corrend de costas pelas linhas do campo.

Nos jogos dos finais de semana não tinham concentrações. Ele ficava parado no túnel que dava acesso ao campo todo sábado esperando todos os jogadores para os treinos de manhã cedo. Você era obrigado a apertar a mão dele e a dar bom dia em alto e bom som. Com isso, ele conseguia ver se você tinha ido para a noitada. Ele olhava para a sua cara e conseguia sentir se você tinha consumido álcool na madrugada (risos). Dava para perceber se estava virado ou não.

Retirado de: ESPN


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